Luta quilombola – comunidades do Extremo Sul resistem ao avanço da monocultura do eucalipto



Reportagem atualizada em 04/05/26, às 19h56
“Combinaram de nos matar. A gente combinamos de não morrer”
(Conceição Evaristo)
A luta de comunidades quilombolas e indígenas no Extremo Sul da Bahia ocorre há décadas, pelo reconhecimento de suas terras e preservação de suas culturas. Ávidas pelo lucro, empresas multinacionais ligadas ao agronegócio passam como um rolo compressor sobre populações tradicionais e centenárias, utilizando, inclusive, o território de um antigo cemitério para o plantio e extração de eucaliptos. Na região, natureza e ancestralidade são dizimadas em detrimento da produção industrial e do acúmulo de capital.
Atualmente, a Suzano Papel e Celulose possui mais de 2 milhões de hectares, distribuídos na Bahia e em mais seis estados brasileiros. Desde 2019, a empresa é uma das maiores do mundo no setor e adquiriu antigas gigantes do mercado, a exemplo da Aracruz e da Votorantim.
Moradora da comunidade quilombola de Helvécia, a professora e coordenadora pedagógica Roseli Constantino Ricardo comenta sobre a chegada da monocultura do eucalipto na região: “Falaram para o nosso povo que o progresso iria chegar, pois era um grande empreendimento. Mas, infelizmente, esse progresso não chegou; muito pelo contrário. Chegou a fome, chegou a destruição dos nossos espaços naturais, acabou com uma boa parte do meio ambiente”. Roseli explica que, a partir do cenário de degradação e da conscientização da comunidade, começou a luta com o objetivo não só de resgatar a cultura, mas também de ver esses espaços reconquistados e ampliados.

Docente da área de Letras da UNEB (Campus de Teixeira de Freitas) e pesquisador da comunidade de Helvécia desde 2005, Valdir Nunes dos Santos afirma que o poderio econômico das grandes empresas praticamente expulsou os quilombolas de seus territórios. “O preço das terras, à época, oferecidas pelas empresas, chegava a ser dez vezes superior ao preço normal da região. Então, esses moradores se sentiram seduzidos a vender as terras; eram praticamente obrigados e iam para outras cidades”, comenta Santos.
O professor complementa, ao explicar o impacto das grandes plantações de eucalipto na cultura local: “Interferiram e continuam interferindo na prática cultural ancestral da comunidade de Helvécia. Manifestações culturais como o bate-barriga, mouros e cristãos, puxada de mastro e samba de viola formam o patrimônio cultural dessa comunidade. É um elo social que essa comunidade produz e tem como legado, como herança, como ação cultural de sobrevivência de seus moradores, mas o assombreamento do eucalipto e suas diversas consequências colocam em risco sua continuidade”, pontuou Valdir.

Dança bate-barriga. Foto: Valdir dos Santos
Luta pela legalização
Embora existam outras comunidades no Extremo Sul da Bahia, na região apenas oito possuem certificações da Fundação Cultural Palmares, entidade ligada ao Governo Federal. No município de Nova Viçosa: Helvécia, Cândido Mariano e Rio do Sul; na região da cidade de Caravelas: Volta Miúda, Naiá e Mutum; em Itanhém, a comunidade de Mota; e em Ibirapuã, a Vila Juazeiro.
Membro da Diretoria Executiva da Associação Quilombola de Volta Miúda, Célio Pinheiro Leocádio afirma que, das oito comunidades citadas, sete possuem o processo de demarcação de terras aberto pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), entre elas Volta Miúda.
Leocádio ressalta que Volta Miúda possui 6.595 hectares, porém, não tem nem 10% de uso do território. Todo o restante está nas mãos da empresa Suzano. Ainda segundo Célio, em 2022, a partir de uma audiência com o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União, foram entregues ao MPF mais de 2 mil páginas documentando todo o problema. A liderança quilombola afirma que duas ações civis públicas foram movidas pelo MPF, sendo que a primeira delas, já com sentença favorável, segue com a execução protelada. A medida deveria ter sido cumprida em 180 dias, mas em julho completará três anos de espera.

Foto: Franedir Gois - Site Riqueza Nossa
Má vontade política
O cenário de degradação poderia ser outro, caso existisse vontade política por parte dos governantes. Essa é a análise da professora Luzeni Ferraz de Oliveira Carvalho. Integrante do Departamento de Educação da UNEB – Campus X, ela coordena, desde 2022, um projeto ligado à comunidade quilombola de Volta Miúda. Segundo a docente, as empresas que atuam na exploração do eucalipto na região possuem muita força junto aos governos municipais, Assembleia Legislativa e Congresso Nacional. “Eles (empresários do agronegócio) agem diretamente na cooptação dos municípios, que acabam agregando força a essas empresas. E aí a gente vai no cerne da questão, que é a falta de vontade política para demarcar os territórios. Como consequência, as comunidades sofrem de forma absurda”.
Apoio da sociedade
Para a professora Luzeni, uma das maneiras de fortalecer a resistência das comunidades quilombolas é por meio do apoio da sociedade que convive na região do conflito. “É uma comunidade que sofre com a ausência muito grande do Estado. A estrada até Volta Miúda, por exemplo, tem 28 km de terra, que fica intransitável quando chove. É importante que a sociedade apoie essas comunidades; elas têm uma riqueza cultural muito grande a ser preservada. São danças e comidas que servem como resistência”.
As denúncias presentes nas falas de Leocádio e da professora Luzeni podem ser metaforizadas em imagens das estradas que permeiam as plantações e dão acesso às comunidades de Volta Miúda e Helvécia. Eucaliptos a perder de vista fecham todos os ângulos e, além de ressecarem o solo, isolam os quilombolas, oprimem e bloqueiam o olhar tanto para o horizonte quanto para o futuro das novas gerações. Porém, a poeira que sufoca a garganta de quem transita, não cala o grito para a luta. Por isso a resistência organizada se torna tão essencial à sobrevivência.

Resistência que é materializada em projetos desenvolvidos pelas comunidades, como por exemplo o cultivo de alimentos agroecológicos que são comercializados pelas/os feirantes dessas comunidades e, ainda, a divulgação das manifestações culturais locais que são realizadas em atividades desenvolvidas com o apoio das universidades públicas e da rede pública de ensino. O apoio de cada um de nós, inclusive de você, leitor, pode vir por meio do consumo e divulgação dos produtos quilombola.
Esperança
Em meio a tantos problemas, a esperança de dias melhores também se torna resistência e está no olhar firme que desafia o preconceito, nos passos que vem de longe, nas mãos calejadas que trançam o cabelo afro e proporcionam autoestima, nos pés descalços que cultivam o solo, na tradição ancestral que traz as cantigas, as danças e a culinária.
Porém, de acordo com Iolanda Macedo, agente de endemias da comunidade de Helvécia, a força também precisa vir da coletividade. Para ela, infelizmente, nem toda a comunidade — principalmente os integrantes mais novos — tem o mesmo sentido de pertencimento que possuíam seus pais e demais ancestrais.
“Se colocarmos na cabeça o quão forte é a nossa cultura, se todos nós valorizarmos nossa comunidade, seríamos pessoas reconhecidas mundialmente. São tranças, bate-barriga, maculelê, as rezas. Estamos deixando que a modernidade venha e roube nossa força, nossa terra, nossa vida. Nossa cultura está se perdendo porque não estamos dando o valor necessário para ela”, desabafou.
Resistência
Em roda de conversa de que a ADUNEB participou, na quarta-feira (29), com mulheres da comunidade de Helvécia, falas como a de Iolanda foram muito presentes, salientando a importância na coletividade. Para a Coordenadora Geral da Seção Sindical, Karina Sales, essa experiência em Helvécia reforça a histórica articulação que a ADUNEB possui com movimentos sociais do campo na Bahia. Para Karina, “As falas dessas potentes mulheres sinalizam que a esperança está na ação conjunta e organizada, como por exemplo, nessa constituição da Feira das Mulheres Pretas de Helvécia, iniciativa de resistência criada no início de 2026, por um coletivo de mulheres da comunidade, porque juntas somos mais fortes, para lutar contra as opressões de um sistema capitalista, racista e patriarcal”.

Reunião da quarta-feira (29), com mulheres da comunidade quilombola de Helvécia
Na citada Feira, as mulheres mostram os seus quefazeres, mas principalmente marcam posição política e afirmam com orgulho que são de Helvécia, comunidade que produz beiju e outros alimentos, trançam cabelos, com as históricas costuras aprendidas com as avós e repassadas de mãos em mãos, geração a geração por um chamado ancestral. Unidas, acima de tudo, mostram que, assim como Dandara, uma das lideranças do Quilombo dos Palmares, rompem paradigmas, organizam o aquilombamento e atuam de maneira decisiva contra o apagamento da história de suas comunidades.


