Buscar conhecimento no passado para construir o futuro!



Símbolo de resistência afro-brasileira, o Bembé do Mercado 2026 marcou também a realização de mais um encontro do Coletivo Pacto Ancestral, uma aliança política e estratégica firmada entre povos indígenas e comunidades tradicionais de matriz africana no Brasil que conta com o apoio da ADUNEB. Na última quinta-feira (14), no Largo do Mercado de Santo Amaro da Purificação, onde acontece o maior candomblé de rua do mundo, criado por João de Obá, em 1989, Edson Fernando Oliveira Silva, Coordenador de Subseções Departamentais da seção sindical, participou do “Ebó dos Saberes - Pacto Ancestral”, compondo a gira coletiva que contou com lideranças negras e indígenas e representantes de movimentos sociais. Para Edson, estar no Bembé do Mercado é pensar em todo processo de tradição e memória e também em toda a perspectiva de luta que ainda está para ser construída, realizada e conquistada.
Uma das principais pautas da aliança Pacto Ancestral é a defesa conjunta de territórios, reforçando a união, o respeito à diversidade e a sobrevivência construída no passado e no presente, também como expressão de uma conjuntura espiritual ancestral. Nesse sentido, Tata Nganga Dile, Coordenador Nacional de Articulação Política do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (Fonsanpotma), uma das entidades articuladoras do Pacto Ancestral, enfatizou a importância de olhar para o passado para construir estratégias para o futuro a partir de uma perspectiva daquilo que traz unicidade entre os povos originários e de matriz africana que historicamente, por sua condição no Brasil desde o século XVI, possuem e reconhecem seu inimigo comum. Na sua análise, é preciso retomar os parâmetros das lutas dos ancestrais, dos espaços e estruturas de resistência por elas/es criados, para enxergar possibilidades de atuação na contemporaneidade e no próximo século e construir pontes necessárias para dialogar sobre essa realidade.
Durante a gira de saberes, entre diferentes idiomas, oriundos de nações diversas, lideranças religiosas de matriz africana e indígenas também cantaram suas fés, crenças, lutas e resistências. Tupinambás, Pataxós,bantus, jêjes e nagôs abordaram em suas falas os desafios enfrentados pelas comunidades em relação a território, violência, racismo, misoginia, apropriação cultural e outros que as afetam cotidianamente. Entre suas diferenças, ressoa em comum a necessidade de unir forças para resistir e lutar por políticas públicas, parâmetros legais, sobrevivência e justiça social no Brasil.
Carta Pacto Ancestral
Durante a atividade, a aliança estratégica distribuiu cópias da Carta Pacto Ancestral, documento político e protocolar já entregue a representantes do Governo Federal no qual constam propostas para garantir direitos constitucionais aos povos originários e de matriz africana. O documento destaca a amplitude da luta contra o Marco Temporal, enfatizando sua característica enquanto ameaça coletiva, que apaga histórias, memórias e direitos construídos com sangue, resistência e manutenção da ancestralidade viva.
Para Cacica Renata Tupinambá, do Território Tupinambá de Abrantes (Camaçari), o Marco Temporal não só ameaça os povos indígenas. “Ele ameaça os quilombos, as margens dos rios, as marisqueira, entre outros e é importante fazer essa junção para falar que nosso povo pode se unir, ter uma voz mais ativa e buscar os direitos”, destacou a cacica ao comentar a atividade realizada durante o Bembé do Mercado 2026.
A carta pleiteia o reconhecimento da autonomia institucional dos povos indígenas e de matriz africana para além da gestão estatal. Indica ainda a insuficiência da articulação entre o Ministério dos Povos Indígenas e o Ministério da Igualdade Racial e a fragmentação burocrática que se impõem como obstáculo diante da urgência dos territórios. Para suprir as lacunas da abordagem estatal, sugere ainda diretrizes de ação que contemplam a unidade jurídica contra o apagamento, o fortalecimento de ações de vigilância territorial conjunta e protocolos próprios de consulta e defesa de licenciamentos e invasões que ameacem o corpo território indígena ou de matriz africana, a consolidação da soberania e da troca ancestral com o fortalecimento de circuitos econômicos independentes; além de outras ações em frentes executivas, legislativas e jurídicas.
“Assumir uma pauta política é assumir um lado”, disse o professor Edson Fernando Oliveira Silva. Para o Coordenador da ADUNEB a presença e o apoio do sindicato em ações como o Ebó de Saberes se dá, principalmente, na compreensão da importância de entender que se não houver reflexão sobre territórios não apenas como um espaços de ocupação, mas como espaços de vida haverá dificuldade para compreender que sem território não há povo, sem povo não há cultura viva e sem cultura viva não há o que ensinar. “A presença da seção sindical no Bembé acontece para se somar às demais entidades e representações nessa luta que é uma luta pela na vida, pelas pessoas e por perspectivas de futuro que precisam ser dialogadas no âmbito acadêmico e para além dele, para que toda a comunidade possa se inserir nas lutas dos povos originários e dos povos de matriz africana”, analisou o professor.
Na visão nagô, a morte é uma sagrada passagem de um estado físico para o espiritual. Uma transição de volta ao Orun, onde o indivíduo se juntará a seus ancestrais e de onde seguirá influenciando no Aiyê, o plano terreno. O Bembé, o Pacto Ancestral, e todas/os aquelas/es que lutam por justiça social demonstraram em mais esta edição do encontro que seguem em frente carregando a força das/os que vieram antes para construir um futuro com dignidade e garantia de seus direitos!


