Inclusão: Uneb amplia reserva de vagas a comunidades socialmente oprimidas

 A Uneb acaba de reforçar o seu caráter popular e inclusivo. A universidade a partir de agora terá reserva de vagas para indígenas, quilombolas, ciganos, pessoas com necessidades especiais, altas habilidades, transtorno do espectro autista, travestis, transexuais e transgêneros - para graduação e pós-graduação. A deliberação, considerada histórica, foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Universitário, em reunião realizada na sexta-feira (13). A proposição, que veio da pró-reitoria de ações afirmativas, foi resultado de pressões dos diversos movimentos sociais dentro da universidade. Devido a sua importância, a proposta teve o apoio e os votos dos representantes do Movimento Docente. A Uneb, há 15 anos, foi a primeira universidade pública do país a aprovar a política afirmativa de cotas ao povo negro.

A notícia foi muito bem recebida por toda a comunidade acadêmica. Liderança indígena e estudante da Uneb de Eunápolis, Sandro Tuxá, de 41 anos, analisa com satisfação a nova resolução da universidade. Sandro é estudante do curso de Licenciatura Intercultural em Educação Escolar Indígena. Para o aluno, a comunidade indígena considera a conquista fruto de muita luta e diálogo com a reitoria da Uneb. “Há anos reivindicamos uma política de maior inclusão, para que nosso povo possa se tornar parte ativa da universidade. É muito bom ver que tivemos êxito. Vejo uma política que aceita a diversidade e pensa de forma plural”, afirmou Tuxá. Praticamente concluindo a graduação, Sandro pensa em seguir carreira acadêmica: “Tudo o que eu quero é fazer uma pós-graduação. Tenho um compromisso forte com minha comunidade, quero investir na formação do nosso povo”. 
 
A coordenadora da ADUNEB, da pasta de Gênero, Etnia e Diversidade Sexual, Ediane Lopes, afirma que o sindicato considera um avanço a ampliação das cotas, na perspectiva de que a nova resolução pertence a um processo de ação afirmativa. “Cota não é migalha, não é algo que foi dado de presente e nem meritocracia. Existem desigualdades históricas e gritantes, que oprimem e marginalizam pessoas de determinados grupos. O fato de pertencerem a segmentos minoritários e oprimidos é utilizado no cotidiano para marginaliza-los e explorá-los”, explica a professora. Ainda segundo Ediane, outro resultado importante das ações afirmativas é que o espaço do ambiente de trabalho e acadêmico, sendo ocupado por pessoas de setores oprimidos, faz com que se repense o papel desses indivíduos na sociedade, especialmente quando são excluídos em função de suas particularidades.
 
Estudante de graduação do curso de comunicação social, do Campus I, e militante LGBT, Marcos Paulo Lima, relata já ter sido excluído de uma seleção de estágio devido a sua orientação sexual. Após ter seu currículo aprovado, no momento da entrevista presencial, depois de 45 minutos de espera, foi dispensado sem nem ao menos ter conversado com o entrevistador. A alegação foi que seu perfil não era adequado à empresa. Marcos também considera positiva a ampliação das cotas na Uneb, ele afirma que já planejava fazer pós-graduação na área de gênero e sexualidade, mas, agora, possui ainda mais ânimo. “Fazer parte de uma universidade que não apenas debate sobre a população trans, travesti e outras minorias, mas, na prática tem uma política em apoio a essas comunidades, é algo que me faz ter mais vontade de ingressar na pós-graduação”, comenta o aluno. 
 
Pesquisa realizada pela Folha de S. Paulo e publicada em 10 de dezembro do ano passado, mostra que o desempenho de alunos cotistas, na grande maioria, é igual aos outros estudantes. O resultado aponta que a avaliação dos cotistas se torna mais positivo que os não cotistas, visto que começam o curso com performance inferior aos demais. Foram analisados 252 mil estudantes nas edições do Enade, de 2014 a 2016, que é aplicado pelo MEC a alunas e alunos no último ano da graduação.
 
Observatório da Violência
 
Segundo a professora Ediane Lopes, devido ao preconceito, apenas recentemente a população trans, travesti, indígena e outros grupos oprimidos, começaram a adentrar ao ambiente acadêmico enquanto profissionais de educação. Mesmo assim, de maneira muito lenta, se for considerado o quanto tem lutado esses movimentos. Para a coordenadora da ADUNEB, que também é membra ativa do grupo de trabalho do ANDES-SN, de Políticas de Classe, questões Étnico-raciais, Gênero e Diversidade Sexual – GTPCEGDS, além da garantia de vagas nos espaços acadêmicos às populações oprimidas, também é necessário oferecer condições de aprendizado e trabalho, sem preconceito e em segurança. 
 
Com o objetivo de proteger, nas universidades do país, os grupos oprimidos, que a ADUNEB idealizou o projeto, que hoje já foi aprovado e encampado pelo ANDES-SN, de criação do Observatório da Violência. A proposta é que a partir de um amplo levantamento de casos de assédios morais, sexuais e outras formas de violência, seja criado um banco nacional de dados que possibilidade a construção de ações concretas, em defesa das comunidades oprimidas, dentro dos espaços acadêmicos. “A ampliação das cotas na Uneb reforça a importância da criação do Observatório. Sabemos que as universidades muitas vezes reproduzem a violência que ocorre fora dela, a exemplo de opressões, preconceitos, desigualdades e marginalizações. A maior entrada de grupos oprimidos na academia mostra o quanto nosso observatório se torna ainda mais urgente, diante das demandas que virão”, finaliza Ediane Lopes.
 
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