Mesa redonda debateu o novo ciclo da direita no Brasil e as formas de enfrentamento
Autor: Assessoria ADUNEBData de Cadastro: 20/06/2018

Para debater o avanço do conservadorismo na atual conjuntura e a necessidade de combatê-lo, na terça-feira (19), a ADUNEB promoveu no auditório do sindicato, a mesa redonda “Novo Ciclo da Direita no Brasil: O ataque às opressões”. A atividade teve como debatedores a mestranda Amanda Palha (UFPE), e os professores da área de Ciência Política, Milton Pinheiro (UNEB), e da área de História, Muniz Ferreira (UFRRJ). A mesa foi organizada pelo Grupo de Trabalho de Política de Formação Sindical (GTPFS), da ADUNEB.
Como mediador das discussões Milton Pinheiro iniciou a atividade localizando historicamente o início do novo ciclo da direita no Brasil. Para o professor, embora segmentos reacionários sempre existiram no país, o processo atual tem origem a partir das jornadas de junho de 2013, período em que milhões de brasileiros tomaram as ruas para protestar por transporte público, moradia, ética na política, garantia de direitos sociais aos moradores da periferia, entre tantas outras reivindicações. De acordo com Milton Pinheiro, junto às pautas progressistas, 2013 também trouxe um conjunto de forças políticas reacionárias, que começaram a atacar, pela direita, a democracia, a credibilidade dos partidos políticos de esquerda, as bandeiras vermelhas como símbolo mundial dos trabalhadores e do socialismo.
A disputa das ruas foi ganha pela direita, pelos grupos rentistas que operam à base de juros altos e superexploração do trabalhador, os mesmos grupos neoliberais que posteriormente provocaram o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Nesse contexto, o conjunto dos trabalhadores que passou a sofrer os ataques não está politizado para reagir, porque foi apassivado por muitos anos pela postura dos governos petistas e pelas centrais sindicais, que apoiavam o governo federal. Para Milton Pinheiro, o novo ciclo da direita está em aberto e não tem o perfil clássico do fascismo. Se apresenta próximo aos moldes estudados por Nelson Werneck Sodré e Umberto Eco, como um fascismo cotidiano. São todas as práticas diárias antidemocráticas, xenofóbicas, racistas, que aparelham o estado para exercitar o poder coercitivo e atacar as organizações e as pautas sociais progressistas.
Militante do Movimento LGBT há 12 anos, Amanda Palha, ressaltou a mudança qualitativa nos segmentos da direita, que fazem o enfrentamento à esquerda. Para ela, a atenção e a luta têm que ser voltadas não aos grupos tradicionais e quase caricatos de reacionários, mas ao que ela chama de a “nova direita”, mais bem formada e que, entre outras ações, se apropria das pautas da esquerda. Para além de Bolsonaro e seus apoiadores, a nova formulação de direita quer discutir racismo, opressões às mulheres e outras pautas consideradas progressistas, mesmo tendo um viés conservador. De acordo com Amanda, a direita moderna rouba pautas relacionadas à liberdade e igualdade democrática e faz a discussão para desqualificar a esquerda. “Ninguém entende melhor liberdade e igualdade, dentro das concepções e limites do estado burguês, que os liberais. Essa é a direita que considero perigosa aos movimentos sociais”, afirmou a mestranda da UFPE.

Atentos à fala de Amanda Palha
De acordo com Amanda, refletir sobre no novo ciclo da direita é pensar também em uma nova esquerda, que precisa se repensar, pois as antigas respostas já não dão mais conta da realidade e não encontram eco na sociedade. A militante LGBT declarou que o momento é de radicalidade e convidou a todas e a todos para uma nova forma de fazer a luta. “Temos que reivindicar as palavras que são nossas e não cabem na boca deles. Falar em liberdade, em democracia é bonito, são palavras compartilhadas. Mas tem palavras que eles não conseguem falar, como a ditadura do proletariado. Talvez esse caminho seja a chave para o novo ciclo da esquerda. Precisamos de respostas à altura dos desafios que nos são impostos”, afirmou Amanda.
Para o professor da Federal Rural do Rio de Janeiro, Muniz Ferreira, o que temos atualmente é um movimento orientado por uma ideologia neoconservadora, o que acaba gerando efeitos de caráter reacionário. A citada ideologia combina elementos fundamentais do repertório conservador nos âmbitos político, social e cultural, com elementos do neoliberalismo exacerbado. Esse conservadorismo, além de ser a defesa da ordem política e social vigente, é também a defesa do patriarcalismo, do machismo, da supremacia branca. Para Ferreira, “O que temos hoje no Brasil é a propagação de um pensamento conservador, elaborado com um certo burilamento intelectual para o consumo de uma determinada elite discursiva de direita”. E esse pensamento conservador, fragmentado e levado ao senso comum, se transforma em um discurso de ódio, enraivecido, contra uma série de pequenas conquistas sociais.
Sobre a necessidade de combate ao novo ciclo da direita, Muniz ressaltou que não existe capitalismo e ordem burguesa sem exploração e opressão. Para o enfrentamento ao cenário vigente, o professor defendeu a unidade da esquerda revolucionária. É necessário que os vários segmentos entendam que qualquer esforço de hierarquização das lutas, só divide e enfraquece a classe. A fragmentação facilita a reação do oponente. Todas as lutas da classe trabalhadora devem caminhar juntas.
A mesa redonda foi transmitida por videoconferência para todos os campi da Uneb e também pela página do facebook da ADUNEB. Assista aqui o vídeo da atividade na íntegra.
