Videoconferência debateu o atual golpe no Brasil

 Organizada pela ADUNEB a mesa redonda “Quem deu o golpe no Brasil”, realizada nesta quinta-feira (19), no campus da Uneb, trouxe à tona várias questões que ajudam a elucidar o contexto do golpe, que destituiu a presidenta Dilma Rousseff. Para refletir sobre a questão estiveram presentes à mesa a diretora do ANDES-SN, Caroline Lima, e a pesquisadora da Ufba, Maíra Kubik. A atividade teve sinal de videoconferência disponibilizado a todos os campi da Uneb, e fez parte das ações do grupo de trabalho da ADUNEB de Política de Formação Sindical.

Integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Mulher (Neim/Ufba), Maíra Kubik, iniciou o debate contextualizando o momento atual de avanço do conservadorismo. A professora foi uma das pesquisadoras do Neim ameaçadas no ano passado, via redes sociais, pelo progressista debate relacionado às questões de gênero que desenvolvem naquele núcleo. Maíra fez suas reflexões pautada a partir do conceito de “fascistização social”, desenvolvido pelo sociólogo português Boaventura Santos, que, a grosso modo, pode ser caracterizado quando vários aspectos do fascismo são identificados na vida cotidiana.

A professora da Ufba localiza o golpe como sendo parlamentar, jurídico e midiático. Foi o resultado da “fascistização social”, que é crescente no mundo e tem reflexos no Brasil há mais de uma década. Para Maíra Kubik, tanto o golpe quanto a contrarreforma trabalhista e outras políticas de retiradas de direitos sociais, impostas pelo governo Temer, só tiveram êxito devido a esse aumento das características fascistas da sociedade.

Outro aspecto abordado pela integrante do Neim foi a parcela de responsabilidade do próprio Partido dos Trabalhadores para a queda de Dilma. Apesar de compartilhar da tese de que o golpe foi dado pelos setores de direita do país, que buscavam reaver o controle direto do Estado e da economia, o PT errou ao apostar em uma política de alianças com a burguesia e a conciliação de classes. A aproximação com setores da política como, por exemplo, a bancada ruralista capitaneada por Kátia Abreu, demonstrou uma pauta contraditória. Desprezada pelo capital, que já não tinha mais interesse em uma conciliação, Dilma também viu afastada de si grande parcela da esquerda, que há muito não se sentia representada pelo governo federal.

A diretora do ANDES-SN e da ADUNEB, Caroline Lima, iniciou sua análise trazendo para o debate a relação entre o golpe e a luta pela educação pública superior, com a garantia de direitos da categoria docente. Segundo a professora, o golpe no ensino público começou antes de 2016. Os processos de redução orçamentária que ocorrem nas universidades públicas de todo o país, a retirada de direitos e achatamento de salários dos docentes provocam há muito tempo o desmonte das citadas instituições de ensino. Para a diretora, o impeachment de 2016 intensificou os ataques neoliberais. As investidas do governo Temer contra os professores tem sido uma maneira de tentar enfraquecer os servidores públicos, um dos maiores focos de resistência da classe trabalhadora. As contrarreformas trabalhistas, do ensino médio, o Escola sem Partido, entre outros, são também resultados dos ataques de setores conservadores e do neoliberalismo à categoria docente.  

O caráter machista e misógino do golpe também foi abordado pela sindicalista. De acordo com Caroline, durante o processo de impeachment, a base aliada, além de propagar a imagem pejorativa de “durona” de Dilma, ainda abandonou o apoio à presidenta. “Será que se fosse o Lula os comportamentos dos parlamentares seriam os mesmos? A ala machista soube se aproveitar e fazer um discurso misógino”, afirmou a docente. 

A diretora da ADUNEB também criticou a política de conciliação de classes de quando o PT esteve à frente do governo federal. Na ótica da professora, o país sofre atualmente a consequência mais perversa do período de conciliação, que é a atual apatia e desmobilização da classe trabalhadora. O apassivamento dos sindicatos e movimentos sociais faz com que agora o país pague caro e não consiga reagir com a intensidade necessária para reverter o golpe.

Embora ainda não com a força necessária para barrar o governo Temer, Caroline vê com entusiasmo o momento de unidade da esquerda em defesa da democracia e da liberdade de Lula. Porém, ressalta que a luta tem que ser para além da conciliação de classes e da militância apenas virtual nas redes sociais. “A luta tem que ser na rua e não podemos esperar pela iniciativa das centrais sindicais. Temos que começar já a construção de uma forte greve geral no país”, finalizou a docente.
 
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