Novo massacre de jovens negros choca a Bahia

Uma das vítimas era estudante da Uneb. Tragédia mostra a ineficiência da política de segurança pública estadual

Por Assessoria ADUNEB · Publicado em

Menos de um dia antes da Chacina do Cabula completar dois anos, mais um massacre de jovens negros chocou a Bahia. Dessa vez o crime aconteceu na periferia de Porto Seguro, com a execução de oito vítimas e um ferido grave. Um dos mortos, Igor Santana, 20 anos, era estudante do curso de Letras, da Uneb de Eunápolis. Além de Santana, os outros executados foram Victor Bispo, Caio Bispo, Vinicius Bispo, Gabriel Fernandes, Felipe Borges, Gabriel Feitosa e Leandro Feitosa. Todos na faixa de 17 a 27 anos. Dos oito assassinados, quatro eram filhos de policiais.

De acordo com a Polícia Civil, os jovens foram assassinados após retornarem de uma festa. O massacre aconteceu em uma residência do bairro Porto Alegre I. Os assassinos utilizaram espingardas e outras armas de grosso calibre. Embora alguns dos suspeitos já tenham sido identificados, os nomes não foram revelados para não atrapalharem as investigações.
 
A diretoria da ADUNEB manifesta profundo pesar pelo acontecido e ressalta a importância da rápida investigação e punição dos culpados com os rigores da lei. Para a diretora da pasta de Gênero, Etnia e Diversidade do sindicato, Ediane Lopes, dois fatores são preocupantes: os constantes assassinados e chacinas, como frutos de um racismo institucional, e a ausência de responsabilidade dos Estados. “Temos que refletir muito sobre a desresponsabilização do estado em relação às barbáries que vem acontecendo. Não se pensa em tentar resolver o problema de maneira estrutural, apenas aplicam o aumento do efetivo policial. Uma polícia mal formada, que não rompe com a cultura de violência, que vem sendo empregada desde na formação dos efetivos no período militar. O resultado desse modelo de segurança pública é um crescente número de jovens negras e negros morrendo nos estados. Isso é uma demonstração de racismo institucional”, explica Ediane.
 
Os dados estatísticos confirmam a fala da diretora da ADUNEB. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, entre 2011 e 2015, ocorreram no país mais mortes violentas intencionais do que na Síria. De todas as vítimas de 2015, os jovens corresponderam a 54%. Desses, 73% eram negros e negras. Dos mais de mais de 600 mil brasileiros presos, 60% eram negros e pobres.
 
Morador de Porto Seguro e professor do curso de História, da Uneb de Eunápolis, Francisco Cancela fez um forte depoimento, em uma rede social na internet, sobre a chacina de Porto Seguro. “Ao chocar a todos, a triste notícia desnuda a ineficiência da nossa política de segurança pública que, com sua guerra cega às drogas e sua tentação nas ações repressivas, vitima diariamente centenas de jovens promissores, de moradores da periferia, de cidadãos trabalhadores, inclusive policiais e seus familiares”. Em seu desabafo, Cancela ainda tenta apontar saídas para combater o extermínio da juventude, sobretudo, negra, pobre e moradora na periferia. “Ao gerar medo e indignação, a morte desses jovens alerta a necessidade de cultivarmos a cultura de paz, de construirmos uma cidade de direitos, de propormos políticas públicas de juventude, de sonharmos com praças, parques e escolas cheias de vida e alegria. Aqui, o portão da Uneb se fechou. Estamos também de luto”, afirmou o professor de história.
 
Cabula clama justiça
 
Menos de 24h após a chacina em Porto Seguro, o massacre de 12 jovens negros, sem passagens pela polícia, do bairro Cabula, em Salvador, completava dois anos. O caso e os familiares dos assassinados continuam à espera da justiça. As investigações do Ministério Público Estadual evidenciaram que os corpos das vítimas receberam cerca de cem tiros, a maioria disparada de cima para baixo, em alvos já rendidos e sem possibilidade de reação. Por receio de falta de isenção do Estado da Bahia, o Ministério Público Federal solicitou que o caso seja julgado pela justiça federal. No momento o processo espera por decisão do Superior Tribunal de Justiça. Leia a reportagem especial feita pela ADUNEB, sobre o Massacre do Cabula, (leia mais) quando o episódio completou um ano.
 
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