Notícias

Luta contra opressões e exploração das minorias foi tema de debate na ADUNEB



 Com o auditório do sindicato lotado, nesta terça-feira (22), aconteceu a última etapa da I Jornada de Formação Política da ADUNEB. Com o tema “A questão das opressões no capitalismo contemporâneo” a atividade teve como expositora a professora da Unifesp, Renata Gonçalves. A debatedora foi a diretora do sindicato, Ediane Lopes.

Para explanar sobre as opressões no capitalismo atual, Renata Gonçalves iniciou a análise trazendo à tona a fundamental participação das mulheres no processo revolucionário russo, de 1917.  Ela apresentou um panorama sobre as condições de opressão sofridas pelo sexo feminino no início do século 20, na Rússia, e estabeleceu um paralelo com as mesmas condições da sociedade machista brasileira, do mesmo período. 

As reflexões da professora Renata, doutora em Ciências Sociais, foram baseadas em seu artigo “Páginas feministas de Outubro” (leia mais), publicado pela Revista Ponto e Vírgula. De acordo com a pesquisadora, na Rússia do início do século XX, a opressão machista era tanta que os homens tinham o direito sobre a vida e a morte das mulheres. Um país extremamente agrário, em que 80% da população era analfabeta, sendo que dessa porcentagem, a grande maioria era formada pelo sexo feminino. Assim, sem direito a ocupar espaços em organizações política. A sociedade da época aceitava com naturalidade a condição de subalternidade da mulher, imposta pelos homens.

A alteração desse cenário se deu a partir da I Guerra Mundial, em 1914. Com os homens obrigados a engrossarem as colunas militares na guerra, os postos de trabalhos ficaram ociosos e as produções caíram. A solução foi fazer com que as mulheres ocupassem maciçamente os postos das esferas produtivas.

A superexploração do trabalho feminino, que tinha que conciliar jornadas extenuantes e também o trabalho doméstico, fez com que em 23 de fevereiro de 1917, fosse deflagrada um movimento de revolta das mulheres, principalmente, das que atuavam no segmento têxtil. As reivindicações eram sobretudo por pão, paz e liberdade.

Cisão histórica

As manifestações causaram profundo impacto nos processos de poder na Rússia. Duas teses passaram a ser debatidas. A primeira, com menor influência, passou a defender a participação feminina nos espaços e organizações políticas. Para esse grupo, não seria possível a transformação da sociedade sem o combate às relações de opressão às mulheres, aos negros e outras minorias. Já a segunda, que possuía maior número de adeptos, questionava a participação feminina e defendia o argumento que tal situação seria um atraso histórico, pois se perderia muito tempo na formação política de quadros do sexo oposto.

Para Renata Gonçalves, o debate abriu um fosso na história que, guardadas as devidas proporções, se refletiram em outros períodos revolucionários pelo mundo. Assim, por exemplo, ocorreu nos processos revolucionários na Nicarágua e em El Salvador, na década de 1980. Em períodos históricos como esses, graças as conquistas feministas, até as possibilitaram pegar em armas, mas o papel central era de prover a alimentação e cuidado com os homens.
 
Diretoras da ADUNEB, Zózina Almeida e Ediane Lopes, e a palestrante Renata Gonçalves

Brasil e atualidade

Os mesmos processos que subjugam as mulheres, como dissertava a feminista Simone de Beauvoir, a ser um segundo sexo, também impactaram o Brasil. O voto feminino foi permitido apenas em 1932. Mas o avanço, na prática, quase não tinha efeito, pois o voto era aceito apenas às alfabetizadas, o que continuava a deixar de fora do processo a maioria das brasileiras daquele período.

A mesma questão permanece até hoje no mercado de trabalho, em que mulheres possuem menor chance de ascensão nas empresas; com os homens recebendo salários melhores que o sexo feminino, em cargos iguais. Pior ainda acontece com o público LGBT, onde são obrigados a aceitar os postos mais precários de trabalho, a exemplo dos serviços em call center.

Luta conjunta

De acordo com a professora Renata, para melhor se reproduzir o capitalismo se apropria das contradições sociais, sobretudo nas relações de gênero, classe e raça. Para aumentar a exploração e o acúmulo de capital, se apoia em dinâmicas sexistas, racistas, homofóbicas etc. A exploração da força de trabalho é sempre mais intensa em grupos historicamente já oprimidos. Daí, reforça Renata, está dada a necessidade de se compreender que o combate ao sistema capitalista e o rompimento com a sociedade de classes só se efetivará por meio da luta conjunta contra o machismo, o preconceito racial, LGBT e outras minorias. ”É preciso pensar em ações conjuntas, que levem em consideração todas as ramificações das desigualdades sociais e das opressões. Não são lutas específicas, são todas dentro de um mesmo processo”, afirma a docente da Unifesp.

Na esquerda

Na percepção de Renata Gonçalves, o debate sobre qual o papel da mulher nas organizações de esquerda, iniciado na Revolução Russa, continua a existir. Para a pesquisadora, o combate ao capital, que leva em consideração questões de gênero, raça e classe, precisam ser melhor debatidas e compreendidas no interior dos sindicatos e das demais organizações políticas de esquerda. Em muitos casos o que se percebe é que em reivindicações de cunho feminista há a ausência de envolvimento dos companheiros. “A luta por creche por exemplo, dá a impressão de ser uma luta apenas das mulheres”, destaca a professora. O fato evidencia a predominância histórica do machista e o quanto ainda será preciso caminhar, mesmo nas trincheiras da esquerda, na construção de uma sociedade realmente igualitária e sem classes sociais.